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Mensagens

A mostrar mensagens de outubro, 2005

O mindalim

Assim descrevo eu a noite: é a boca de um menino Habitada por um mindalim-dalim e uma semente E o mindalim-dalim rodeia a semente remexendo tábuas À superfície do tempo, fazendo o barulho de gotas no fundo de um copo Cheirando a limão, vestindo vermelho E enredando-se nas mãos dos peixes que passam A caminho da janela A semente está sentada e remenda a pele de um tambor Como se pousasse as mãos nas águas e contém-se Não as estica para que as estrelas que pendem dos animais adormecidos Possam caminhar até ao estrangeiro E o mindalim-dalim caminha com elas Com as patas na face de umas e nas pernas de outras rodopiando Como se fosse mil gotas de um chuveiro E quando canta a terra é húmida e quando fala À semente diz-lhe apenas, «O teu menino vai longe, Vai muito longe», Como se a boca fosse um submarino Ou um balão À deriva por dentro de grutas e fontes E a semente remenda os cardumes que passam sentada À janela.

Numa cesta entrançada às escuras (9a e 9b)

Um catavento de escamas púrpuras para subir o rio de letras Uma lâmina acabada de desencravar para aprender o nome das casas dos pássaros Uma bolsa de sementes porque é importante nadar para sempre no mar dos sargaços Uma pedra amarela para sentir a revolta das árvores no verão A pegada antecipada do meu filho para tocar a pele de uma nuvem vermelha As suites de Bach e os selos de um postal de Roma para oferecer numa cesta entrançada às escuras O lírio selvagem para encontrar o meu reflexo numa sala de espera Uma fita cor-de-laranja para escutar o apito longínquo rasgar-me comboios por dentro Uma corda pisada de violoncelo porque está frio junto à praia, porque tenho fome A sombrinha de um trapezista para levar a embarcação à montanha Os pássaros a largarem o ninho para teimar com as pedras na mão dentro das estrelas O relógio de um escritor para segurar o bando de garças com um sinal antigo A agulha de tecer montanhas para amar vorazmente o deserto Uma página do diário do meu avô para...

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