Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de 2007

A vida a Oriente

a tua vida pode ser a qualquer instante uma pedra uma tesoura cravada numa árvore o som oco de um barco que atraca ao final da tarde ou uma paisagem propícia a tua vida é afinal um oceano ou um fóssil? nos dedos verdes de um presságio pode ou não passear-se um cisne um camelo ou um passageiro apressado por chegar ao deserto onde se deixam as bandeiras a falar umas com as outras de anéis mundos invisíveis que na língua teimam em não mergulhar por isso eu te pergunto se a tua vida é navegável numa tarde soalheira e se encontras nela a mentira e o perigo que há no fundo de um mar ou deixas invernecer os anéis pousados na conversa dos outros e no fumo enquanto escrevo envelheço, não há melhor maneira de procurar os amigos que no silêncio da fogueira eu ouço um erhu eu visito as cidades a oriente com o desinteresse de um rio mas sento-me no chão dos bairros com lamparinas e um copo de vinho canto, isto é, extingo a voz na tua garganta e as línguas são recortadas e queimam nos ramos este out...

Crise de identidade

um homem desce a estrada com os seus cães vadios sabe que a sua vida é completa assim quando o fim de tarde levanta as árvores inclinadas no ar e no ladrar há liberdade, bicicletas e mãos a apertarem-nos peito a peito e diz ao amigo como é bom fazer o caminho ao seu lado sem carpideiras atrás e falar das coisas simples da vida como se escrevesse ininterruptamente ao ritmo da fala e tivesse um tambor na garganta onde um a um tocassem momentos felizes trazidos pela brisa ou memórias por inventar num futuro próximo ou não os amores, as despedidas também mas as noites em campo com lama na cara a guitarra um homem desce essa estrada não vai só jamais até ser parado no posto de controlo frente ao inquestionável absoluto à mão cerrada que cede a uma dor da idade ainda por descobrir e é ilegal continuar a descer esta estrada quando descobre o que navega num gemido encostado a uma parede como uma cobra só, um destroço um homem desce a estrada ouvindo o amigo e brinca com a sua matilha a um espa...

As dúvidas

o que é um dia senão numa colher equilibrar o pressentimento da falta de espaço frente ao mar por isso não procuro por detrás de uma árvore da mesma forma que me sento com as crianças ou me deixo enrolar de raízes à chuva e sentir a nuvem ínfima sobre o deserto como uma agulha ou uma queimadura por quanto te debruças sobre as palavras ditas e a infinidade de mecanismos a desafinarem um uníssono agora pelo que conheces da vida nas ruas e das marcas que te deixam nos braços os cavalos e o atracar dos grandes navios fantasma porque tudo se concentra num momento só aqui frente aos armazéns da foz numa carta abandonada sobre uma mesa de café e sim, inevitavelmente da mesma forma que se deve correr sem alma sobre um prado ou sobre um areal luminoso para se abandonar depois intensamente nas ruas noite dentro encontras esse absoluto num trilho que se afunda num medo abandonado na tua infância e assim como tu eu vou ou não reencontrá-lo por agora espero isto é sentado no muro lanço uma a uma as...

fui

o barco que me bolina a conversa por terminar na estação avança nos cantos de panfletos improvisámos números pressas e alguns esboços por secar recados a vulso que podiam ser apenas pássaros espantados a sobrevoar o campo fugindo da caverna ou uma alegoria de inverno menos inocente olho as cadeiras onde dormem, folheiam uma vida que não é deles aqui os transeuntes as ondas de um lugar longínquo onde os braços se salgam as cabeças encostadas numa boleia que dá pouca conversa até chegarmos onde no meio ao sol um espantalho segura pincéis que pingam e desvia arbitrariamente as nossas atenções porque quando me virei a primeira vez estavas lá segurando a corda e quando nos procurámos depois a multidão esta dispersa por lugares vazios respirando instantes ausentes uma outra sala um dia que espera um outro dia sem valer a pena mencioná-lo o que conta é o ar por quanto tempo não sei e o barco quer bem e avança

Agosto (vento no rosto)

à noite subimos sempre para uma escada uma memória ou um nicho num bairro pobre desta cidade e entramos nas casas velhas como se a elas pertencessemos e vamos de mota na estrada vento no rosto a avançar devagar os dedos sobre os dedos a pele como a de um réptil à chuva e a vontade de nos evadirmos num mar quase indomável e estranho parece que o que trazemos por dizer é um jogo de xadrez um fundo de rio vermelho onde os barcos são levados em línguas de feras e de fogo e tudo é agora relativo e espontâneo e sinto o mar chão a escapar-se-me e eu a correr para entrar num quarto que se apagou e ficou frio antes de me deitar ao teu lado depois de uma demanda mas não pode ser assim não há como dizer destas noites aqui ou noutra cidade a língua é sempre incompreensível os passos circundantes dos mesmos personagens que falam de si mesmo apenas lentos e desconfiados seguros de um niilismo de remos que não se plantam nas águas os véus pretos das mulheres tornam-se um desafio irónico ao tempo e à ...

Superficie

Moinho

quero uma pá de encontrar tesouros para fazer um moinho onde pendurar cores de um pano antigo como usam as florestas antes da tempestade pouco me interessa se quando a noite vem somos encontrados no pontão ainda a soprar nuvens para dentro de garrafas alguma delas trará o acorde certo e as nossas cabeças repousarão junto às dos putos que dormem pendendo dos martelos de um piano ou da impressão dos passos em falso dos tablini blini nós nunca falamos da idade que temos nós nunca falamos da idade que temos e somos tão verdadeiros quanto o aceitamos da terra nos nossos pés nós nunca falamos eu sei, de algumas vilas em que dormi como o calor vem em ripas de junco ou no silvado ou nos cacos multicor de vidro que nos tocam a pele como uma harpa ou uma língua áspera e é tão simples que parece estúpido nunca mais o escrever e o que parece é uma oferta isto é a passagem de um insecto ou a noite nas asas da borboleta que nos cobre a face se hesitamos em sonhar até quando dirás tu que assim tem d...
Ate que idade pensas adiar uma infancia feliz?

June (68)

foi assim que cheguei à costa onde as baleias engolem os amigos para os sentirem por dentro a fazer cócegas em azul e a pintar nas paredes o seu entender das coisas a carvão seria isso o que desejaríamos para um dia sermos mais que um relógio a mergulhar e no regresso a remexer dunas como folhas perenes é uma opinião eu cresço para as aves de rapina e para estes dias debaixo dos cotovelos soprando a espuma da cerveja se queres saber não há como não ouvir vida fora sou um amolador a subir a calçada de Carriche ao fim do dia e passo pelos sítios como se por um espelho nunca cruzado e há nisso a sabedoria das nuvens que se olham uma vez por acaso e depois passam levadas pelos comboios e pelos balões das crianças e há nisso a tristeza dos balões dos adultos nas mãos das crianças ou ainda o vôo premeditado e as explicações que me dás e que são a parte mais fácil do mundo a consciência da vida é ficar ausente e dar pelas águas no pontão ...

Música

a medida do nosso mundo é uma carta que se esconde debaixo de um tapete persa é uma cauda de um cão animada por um instinto mais forte que um apito do barco no cais que as cordas que nos deixam nos braços defronte das velas eu entendo, à passagem nas ruas e ao olhar os casais que saem da ópera ou os homossexuais que discutem uma vida inacabada de outro alguém para tomar café o cheiro da maresia e não do café há a presença constante de uma cidade por entrar e uma hora para largar as peças do xadrez e dançar apenas como uma lamparina de azeite há aliás numa esquina que deixei algures inacabada na memória por um beijo nosso, e são tantos os que dariam para encher esta e outras cartas de um tempo marginal que hesita em destilar este quotidiano que separa a cor do vento nos panos um gesto onde depouso o meu instrumento musical na sombra fresca de um plátano ou será imaginado? porque é quase impossível o branco quando por dentro das nuvens cresc...

idades maiores

o campo amarelo finalmente e depois? dentro do meu barco vivem cães e atrás de uma pergunta estão os dedos e tábuas brancas por debaixo e um sol roxo ao qual sou indiferente o que se encontra se não pararmos nunca junto às fontes e, ao mesmo tempo o que está por vir se não pararmos nunca junto às fontes e ainda o sentido absoluto de uma flor no meio do campo amarelo porque há duas formas de perder um rasto e eu já experimentei pelo menos três içar as velas com garfos e deixar que a noite me cubra as mãos de cera quente como se uma aranha me esculpisse os membros de um afia lápis de cor e nas aparas estas palavras e antes há uma cara e depois a mesma cara mas que já não está nesse sítio a que se retorna e se procura ou simplesmente não percebes? quando me debruço sobre a terra ou sobre um passeio me deito ao lado de um grande canal a escutar rock‘n’roll há um instante em que estou em vários sítios em simultâneo como se fosse possível ver as coisas e amar o que está longe e tocar por de...

partida, lagarta, fugida

há sempre essa folha caída, esse barco que te espera para cobrir uma vida suplente é um binóculo atrás da parede um jogo que te faz pensar duas vezes antes de mergulhares as mãos numa arca de pó conheces bem o que te digo neste momento enquanto nos sentamos sobre o tapete vendo o gelo a derreter em volta e a deixar pessoas minúsculas felizes e em posições obtusas próprias de mecanismos hibernantes num qualquer diário do Leonardo da Vinci ou seja, um quadro no museu do Prado escuta este convite é nessas mãos que está escrito e é difícil repeti-lo como a um pássaro de ramo em ramo a cravar agulhas nos frutos ausentes do verão é isso um osso eu sei que escutas esta mesma música e que pegas finalmente na história que temos para contar e partes, de novo, de encontro ao sal nos olhos junto à estrada e pintas de carvão a pele para que não se esqueça a montanha nem tu do que se escuta ao tocar por dentro os astros impossíveis de alcançar ao fim da tar...