Sabemos que o Inverno chegou quando as torneiras pingarem anémonas e o chão sob os passos for o folhear trémulo de um jornal de dias ligados o fundo do meu copo e os rebuçados ausentam-se definitivamente da conversa estou defronte de um jardim que é uma ilha e um tabuleiro cravado de pregos tortos e mesquinhos e eu sei prefeitamente que o que vejo é um arco perpétuo em chamas sobre as casas que habitei. Atrás ficam as ruas. Os animais adormeceram enquanto a luz encharca as cortinas e sinto um beijo quente enquanto provo a existência em mim de uma matilha abstracta de objectos frustrados: rolos de fita, vasos de ausência, jóias e alguns textos; penso no que sabemos e encontro-me de novo frente a uma rua feita de tábuas e linhas entrelaçadas – descubro o instante que não se deve fotografar - uma câmara vazia é um eficaz objecto de fazer poesia pois é pelo abandono que tudo deve principiar e faz sentido. Entro no jardim. Entrar no jardim é ser contrariado por uma multidão: alguns trazem e...