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Mensagens

A mostrar mensagens de 2006

num bairro rico

por dentro das casas eu vejo água negra o que me deixa sobressaltado as chamas à varanda fazem-me cantar ou será a sensação de uma carta que está esquecida lá fora fazem já alguns dias é como um vaso triste ou uma recordação de algo que nunca se possui mas que é óbvio e se senta numa qualquer prateleira esse é o efeito de não andar só de mãos no cigarro a cumprimentar os turcos nas praças, nem à boleia junto a uma berma enlameada há aliás um lugar que poderás reconhecer nisto um carrossel e esqueletos de animais em metal de onde se constroem as primeiras máquinas de ordenar os instantes da infância no sentimento civilizado de um adulto e eu ouço, é isso! um chamamento, de uma criança, por detrás destes tons espessos de cortinados de veludo, de um copo de absinto em cima de um piano confortavelmente de dentro à chuva ela pergunta-me da ausência do barco das 6 que me levará de volta onde se avistam os molhos de espigas e nas mãos dos homens uma garrafa ver...

daqui

há uma carta que te escrevo como se descesse uma rua revolta pelo vento que traz folhas roxas algumas estrelas em malas furadas e gatos impossíveis daqueles que escolhemos para falar de uma frincha na porta de Inverno como se picássemos uma preguiça com uma espiga que um outro tempo deixou esquecida num barco ou num livro, nos teus cabelos, percebo eu, aquilo que se reecontra quando pegamos novamente em malas e em copos que se precipitam cedo demais na fractura inevitável do quotidiano ou ainda sob uma varanda e em volta aguaceiros o que pode ser sempre trocado por um balão ao qual nos abraçamos com pastel azul que se vai gastando nos nossos dedos ao longo de uma linha imaginária que um deserto conquista e preserva – é assim que nos distinguiremos daqui a alguns anos quando enfrentarmos uma outra cidade e um grupo de mulheres que se aproximam falando uma língua estrangeira com óleos e ramos frescos vem novamente o tempo vem com ele um arder de candee...

A caminho na rã azul

Extracto do relatório do C.F.B. sobre o percurso Cubal-Lobito nº024200

Ao meu amigo Zé Luís ... e isto foi tudo na carruagem nº101, do Cubal ao Lobito há 300 formas de dizer ao contrário um segredo azul nas bocas dos sapos do Calenguele ao Lobito há 200 vitrais e atrás um monte e ríamos sem parar do Lobito ao Caimbambo vimos 200 cães a segurar 200 pontes [ que terminavam em suspenso como a vida a cada instante só do Cábio ao Lobito foram 200 quilómetros que o colega Acácio tricota diariamente [ como uma cópia da instrução primária do Cubal ao Cango vi 200 mascarados com varas nas mãos a espantar um grilo do Calenguele ao Cango aprendemos mais de 100 formas diferentes de dar as mãos [ à beira de um algeroz a pingar do Caimbambo ao Cango comprei 100 cestos de flores amarelas mas senti-lhe o sabor a tijolo do Cubal ao Calenguele encontrámos 100 mulheres a escamar peixe [ e a tirar relógios das suas entranhas e do Cubal ao Caimbambo enganámos 100 esquimós apressados por chegar ao Cubal [ e trouxemo-los connosco mas do Calenguele ao Caimbambo eram 100 o...

998 cartas por chegar (será que estão bem?)

O mais recente balanço indica que as autoridades sanitárias angolanas já registaram 22 596 casos de cólera desde o início da epidemia, que provocaram 998 mortos. Imprensa diária, 2 de Maio de 2006 o meu amigo levanta pó a cada passo que dá numa montanha azul eu, eu tenho perguntas, muitas, onde pôr sal é o sabor cru do sonho mais afiado no príncipio de Maio e eu toco as mãos das crianças e ele toca um tambor e eu troco um dia por chegar por um trampolim invisível e por trás da luz conheço campos abertos cravados de barcos e uma vela que me abraça húmida a puxar-me da ilha diz-me meu amigo que estas cartas são a vida real que os cucos e gralhas ao fim da tarde e a música numa rua lateral é já o Verão com o seu corpo verde a passear na sobra das conversas e a deixar de lado uma vida ausente e branca um copo de sais é o teu perfume? um pomar ou a relva é um moinho de letras de canções felizes e eu toco de improviso e tu trocas comigo e eu toco a terra junto às pernas húmida a soltar a est...

A chuva (pelo caminho)

há este ponto a partir do qual a floresta é impenetrável de risos, troça e um avesso de roupas que não se arruma eu lanço os meus braços sobre a cor e trago de volta uma sensação húmida e a boca seca como se fosse porcelana e os pedaços que recordo de um gesto amigo têm subitamente várias encruzilhadas como um quarto demasiado silencioso há um banco, este, onde me sento, que lembra vagamente uma vida transportada em navios uma viagem à lua e as mãos dadas no tempo quente e isso é uma taça que se enche duas vezes da sua medida e os olhos ardem e as mãos contraem-se para que a tua sombra se mova e se sente também aqui onde é azul mas falta o cheiro do tijolo e a cal na pele queimada os vestidos negros onde se vê a porta de uma alma ou talvez de mais a murmurar: vem quando pararmos, por fim, sente na respiração um martelo por dentro a empurrar uma plaina ansiosa e as imagens que se esborratam como uma aguarela de café até serem o cheiro da madeira molhada e um quadro que se cobre de terra...

Riscos

Há uma manhã em que acordamos junto ao lago e mergulhamos como se nos deixássemos ir por dentro das rodas de uma bicicleta sem oferecer resistência e eu provo, sem possuir, a sombra de um tambor e um pomar de inverno rasgado por barcos lentos eu conheço-te: a gravilha, os grãos secos de leguminosas espalhados sobre a mesa, a mão na tesoura às ordens de um olhar sobre as margens como se em ti mesma e eu envelheço e trepo as árvores preguiçosamente verde enrolamos as casas e fumamos num cachimbo estas incertezas porque há só este instante para partir na aventura que impede o regresso ou melhor a ilusão e quando te ergues há um caminho luminoso que fere o ar e quando fala um sonho interior percebo a medida exacta única do que em ti há e isso é a proximidade de um pano de girassóis de um pente deixado em cima de uma pedra ou as roupas com que os pássaros e animais imprevistos se vestem à medida que me aproximo escolhes para mim o que eu nunca desejaria mais que a lua, a areia nas costas at...

As bandeiras (é sobre passar de noite por locais desertos ou não)

é como a ausência de bandeiras só cordas estendidas e água o pêndulo do frio subitamente iluminado como se um ganso pousasse ou este rapaz trouxesse um objecto em fogo, é a língua a cor é finalmente a pedra e o vidro é por excelência hipocrisia e imitação da realidade viver na rua é conhecer o nome às pessoas pelo seu andar anotar os seus hábitos com desdém pelo dobrar dos sinos a cidade inteira é um desastre que se impede quando pronunciamos as palavras interditas: qualquer vontade que tenhas meu irmão os teus sonhos que sobressaem ao longo das noites frente ao copo de cerveja o fumo a brasa ainda próxima das faces dos amigos da tua própria àquilo que desejas ligar, suster de uma armação invisível e amorosa por dentro de uma caixa fechada que se chama escultura de ti próprio uma imagem espelhada ou alma dos pássaros em volta chega-se uma estrada que passa pelo ridículo e outro lugar qualquer senta-te comigo veste-te de pirata e escuta os metais nos telhados, a matéria a rasgar-se e a...

Um palmo

Sabemos que o Inverno chegou quando as torneiras pingarem anémonas e o chão sob os passos for o folhear trémulo de um jornal de dias ligados o fundo do meu copo e os rebuçados ausentam-se definitivamente da conversa estou defronte de um jardim que é uma ilha e um tabuleiro cravado de pregos tortos e mesquinhos e eu sei prefeitamente que o que vejo é um arco perpétuo em chamas sobre as casas que habitei. Atrás ficam as ruas. Os animais adormeceram enquanto a luz encharca as cortinas e sinto um beijo quente enquanto provo a existência em mim de uma matilha abstracta de objectos frustrados: rolos de fita, vasos de ausência, jóias e alguns textos; penso no que sabemos e encontro-me de novo frente a uma rua feita de tábuas e linhas entrelaçadas – descubro o instante que não se deve fotografar - uma câmara vazia é um eficaz objecto de fazer poesia pois é pelo abandono que tudo deve principiar e faz sentido. Entro no jardim. Entrar no jardim é ser contrariado por uma multidão: alguns trazem e...

Luolo

Revelei estas fotos a semana passada. Foram tiradas numa caminhada ao longo do Rio Catumbela em Agosto de 2005 (Angola, província de Benguela).