Um catavento de escamas púrpuras para subir o rio de letras
Uma lâmina acabada de desencravar para aprender o nome das casas dos pássaros
Uma bolsa de sementes porque é importante nadar para sempre no mar dos sargaços
Uma pedra amarela para sentir a revolta das árvores no verão
A pegada antecipada do meu filho para tocar a pele de uma nuvem vermelha
As suites de Bach e os selos de um postal de Roma para oferecer numa cesta entrançada às escuras
O lírio selvagem para encontrar o meu reflexo numa sala de espera
Uma fita cor-de-laranja para escutar o apito longínquo rasgar-me comboios por dentro
Uma corda pisada de violoncelo porque está frio junto à praia, porque tenho fome
A sombrinha de um trapezista para levar a embarcação à montanha
Os pássaros a largarem o ninho para teimar com as pedras na mão dentro das estrelas
O relógio de um escritor para segurar o bando de garças com um sinal antigo
A agulha de tecer montanhas para amar vorazmente o deserto
Uma página do diário do meu avô para que saiba o caminho para o farol só pela cor dos rostos
Um castelo por dentro do olho para entregar o complexo de antecipação da partida
As nuvens que entram pela porta porque há armadilhas em todos os sorrisos
Os cágados a anotar uma aula de química para corresponder com alfinetes no muro do castelo, nos charcos, a sede
Uma vara comprida para apagar a luz e escutar o suspiro dos vulcões
Um cachimbo surrealista para abater helicópteros como se voasse neles
Uma saída luminosa para mover moinhos sem pás, como se os edifícios tivessem sede finalmente
O peixe sábio a cruzar a onda antes da rebentação para que os gémeos se revelem como um fractura no colo de Deus
Tactear às cegas porque sou habitado por uma passagem vazia
Uma espiga e um corvo por um lado, um pente pelo outro
As botas de um polícia para atravessar a ponte
O gancho nas estrelas para empurrar os mastodontes com uma feixe de capim.
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