Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de 2005

Borboleta

não conseguir enfrentar uma terra branca é a atitude dos corajosos abandonar, resistir, enuncio bóias de sinalização, instantes avulsos, as conversas por dentro dos marcos de correio, os pés nus em frente ao mar, eu dentro de um barco, eu dentro de ti a encostar-me a um espelho se esta manhã de estradas e cortinas fosse um prato sobre o qual aquecemos as mãos abraçava-me a ti com as minhas carruagens como se nunca tivesse existido para lá de uma linha ou de uma âncora andar sobre a neve é o mesmo que atravessar o leito deste rio é o mesmo que interrogar o universo ou que falar de mim andar sobre folhas secas é provar uma romã e deixá-la sobre um banco na cidade dispersa andar na tua voz é o mesmo que esperar debaixo de uma varanda a chegada do autocarro num dia de chuva ou dormir na copa das árvores embrulhado em panos é andar no dorso dos peixes eu quero o cais – só preciso de um pano para me transformar sou um dia inteiro para despir árvores o meu nome é uma ponte que se olha depois ...

O mindalim

Assim descrevo eu a noite: é a boca de um menino Habitada por um mindalim-dalim e uma semente E o mindalim-dalim rodeia a semente remexendo tábuas À superfície do tempo, fazendo o barulho de gotas no fundo de um copo Cheirando a limão, vestindo vermelho E enredando-se nas mãos dos peixes que passam A caminho da janela A semente está sentada e remenda a pele de um tambor Como se pousasse as mãos nas águas e contém-se Não as estica para que as estrelas que pendem dos animais adormecidos Possam caminhar até ao estrangeiro E o mindalim-dalim caminha com elas Com as patas na face de umas e nas pernas de outras rodopiando Como se fosse mil gotas de um chuveiro E quando canta a terra é húmida e quando fala À semente diz-lhe apenas, «O teu menino vai longe, Vai muito longe», Como se a boca fosse um submarino Ou um balão À deriva por dentro de grutas e fontes E a semente remenda os cardumes que passam sentada À janela.

Numa cesta entrançada às escuras (9a e 9b)

Um catavento de escamas púrpuras para subir o rio de letras Uma lâmina acabada de desencravar para aprender o nome das casas dos pássaros Uma bolsa de sementes porque é importante nadar para sempre no mar dos sargaços Uma pedra amarela para sentir a revolta das árvores no verão A pegada antecipada do meu filho para tocar a pele de uma nuvem vermelha As suites de Bach e os selos de um postal de Roma para oferecer numa cesta entrançada às escuras O lírio selvagem para encontrar o meu reflexo numa sala de espera Uma fita cor-de-laranja para escutar o apito longínquo rasgar-me comboios por dentro Uma corda pisada de violoncelo porque está frio junto à praia, porque tenho fome A sombrinha de um trapezista para levar a embarcação à montanha Os pássaros a largarem o ninho para teimar com as pedras na mão dentro das estrelas O relógio de um escritor para segurar o bando de garças com um sinal antigo A agulha de tecer montanhas para amar vorazmente o deserto Uma página do diário do meu avô para...

Pegadas