Avançar para o conteúdo principal

O mindalim

Assim descrevo eu a noite: é a boca de um menino
Habitada por um mindalim-dalim e uma semente
E o mindalim-dalim rodeia a semente remexendo tábuas
À superfície do tempo, fazendo o barulho de gotas no fundo de um copo
Cheirando a limão, vestindo vermelho
E enredando-se nas mãos dos peixes que passam
A caminho da janela

A semente está sentada e remenda a pele de um tambor
Como se pousasse as mãos nas águas e contém-se
Não as estica para que as estrelas que pendem dos animais adormecidos
Possam caminhar até ao estrangeiro
E o mindalim-dalim caminha com elas
Com as patas na face de umas e nas pernas de outras rodopiando
Como se fosse mil gotas de um chuveiro
E quando canta a terra é húmida e quando fala
À semente diz-lhe apenas, «O teu menino vai longe,
Vai muito longe»,
Como se a boca fosse um submarino
Ou um balão
À deriva por dentro de grutas e fontes

E a semente remenda os cardumes que passam sentada
À janela.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

As bandeiras (é sobre passar de noite por locais desertos ou não)

é como a ausência de bandeiras só cordas estendidas e água o pêndulo do frio subitamente iluminado como se um ganso pousasse ou este rapaz trouxesse um objecto em fogo, é a língua a cor é finalmente a pedra e o vidro é por excelência hipocrisia e imitação da realidade viver na rua é conhecer o nome às pessoas pelo seu andar anotar os seus hábitos com desdém pelo dobrar dos sinos a cidade inteira é um desastre que se impede quando pronunciamos as palavras interditas: qualquer vontade que tenhas meu irmão os teus sonhos que sobressaem ao longo das noites frente ao copo de cerveja o fumo a brasa ainda próxima das faces dos amigos da tua própria àquilo que desejas ligar, suster de uma armação invisível e amorosa por dentro de uma caixa fechada que se chama escultura de ti próprio uma imagem espelhada ou alma dos pássaros em volta chega-se uma estrada que passa pelo ridículo e outro lugar qualquer senta-te comigo veste-te de pirata e escuta os metais nos telhados, a matéria a rasgar-se e a...

Fala

eu ouço dos aviões o chamamento das árvores como se fosse uma criança perdida num jardim a dançar e a dizer: "vou para casa" onde chego não encontro para além de círculos desenhados nas toalhas de mesa e o cheiro da cera vermelha quando dou a mão, falo com a mão quando te olho digo coisas mas por dentro como peixes e quando grito eu sou o cimo de uma montanha a passagem este instante eu prefiro inequivocamente os aviões aos pássaros eu prefiro correr atrás de uma bola que atrás de pássaros negar é uma tarde de sol a escrever num quarto uma tarde sol negar é dizer o que se vive de um mundo paralelo mas há fontes onde é impossível omitir peixes e cristais que se intersectam como mãos tingidas a cantar um trava-línguas o quotidiano é construído das margens onde os homens se abraçam carregados de instintos nas vozes há pontes sempre existiram durante curtos períodos que a torrente dilui ou simplesmente o tempo faz sobrepôr outra construção há ciclos na vida eu não os conheço mas ...

Dos ulmeiros

foi quando a estação entrou quando disse que sim por entre as ruas desirmanadas onde os polegares equilibram piões e cotovias e as tábuas baloiçam um tempo de construção um socalco semeado quando a água escasseou e virámos a estibordo a conversa de encostar à parede um encontro noutro dia frente a um cais ou a esse canteiro pendendo horas vagas de uma janela espreita uma velha de monóculo sobre as crianças? amassam barro – junto as raízes dos ulmeiros era assim que queria chamar essas árvores como contava uma história – chamava por ti é como beijar-te e sofrer um navio ou pelo menos assim o entendo o acaso de te encontrar antes do nome desta rua