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Mensagens

A mostrar mensagens de 2008

Correspondência

o rio volta pela mesma rua em que nos encontramos e leva com ele um navio ou uma criança as coisas simples quer delas prescindamos quer prefiras o cheiro do fundo do mar algures numa costa perdida para o mundo vêm sempre no bolso dos calções de uma criança ou no apito do oficial de dia mas nenhuma habita este lugar de retorno como se das memórias de um elefante escolhêssemos algumas a vulso consoante a cor ou a reminiscência de uma passagem do vento no renque de laranjeiras na nossa rua noutras ruas somos sempre a imagem de um outro vôo apenas ensaiado mas não é isso que queremos: dentro há rumores passagens de carros na noite uma colher enegrecida de açúcar e limão o encostar a cabeça num torso e sempre o pó, a ambiguidade de uma vida feita uma desistência ou ainda um lugar certo demais como uma paragem da carreira eu espero por ti desde o início da tarde para te dizer coisas bonitas e o dia tem nele o cheiro das frutas da mercearia na esquina a farinha que sobra do pão os tons das sa...

Rue de Lombard com a Stoofstrasse

os dias podem entrar na porta de casa como uma escada que se usa sem um fim específico por exemplo levantar asa de um pássaro, macerar um boião de carmim ou brindar a minha rua vista de outra cidade é um vaso só mas quando a desço há o cheiro a basílico nesse vaso e quando a desço há o ninho do melro os homens entram em casas e voam há os que trazem o jornal ou sono e os que falam junto aos cotovelos das mulheres fazendo-lhes cócegas no cruzamento em que me encontro rue de Lombard com a Stoofstrasse uma mulher fuma enquanto olha o terceiro andar e uma varanda coberta de luz a sua pele é branca e a forma como pensa é branca e veste de verde e a luz verte em redor da varanda o negrume do tijolo envelhecido e a calçada pontuada de beatas, cerveja e vestígios de amendoim enquanto a fila de peões atravessa a rua o fumo mesclou-se com uma outra varanda e a oportunidade passou há jogadas em que somos voluntariamente subservientes de uma ideia politeísta da natureza dos animais e do amor trans...

O meu mundo pertence a este sofá

“Pertencemos a vários mundos mas o nosso quotidiano é a fuga a todos eles para construir uma ideia vã de lealdade, uma desculpa que nos conforte da perda de não nos fixarmos em nenhum lugar”, dizia-me a Xana, ontem. “Só podemos pertencer a um sítio: um sofá, onde casualmente nos sentamos sem compromisso algum”, acrescentava. “Se te ligas a alguém, a uma rotina, a um ideal, não podes mais ser tu, entendes? É como se o fatídico rumo do teu nome se revelasse afinal uma crise de indentidade irresolúvel, desinteressante, que se deixa de buscar e se delega. Passa tudo a ser um jogo que no marasmo do ócio parece ganhar um sentido enigmático, mas não é mais que isso”. “Estás-me a dizer que eu sou um desses enigmas? Mais um jogo de ócio?” perguntei-lhe de olhos fitos nas mangas roídas de um dos empregados que desesperava perante mais um pico de pedidos de bicas, tremoços e scones. “Sim, tu o assumes quando me dizes que estás comprometido com um idealismo que achas que deve moldar este projecto...

Fala

eu ouço dos aviões o chamamento das árvores como se fosse uma criança perdida num jardim a dançar e a dizer: "vou para casa" onde chego não encontro para além de círculos desenhados nas toalhas de mesa e o cheiro da cera vermelha quando dou a mão, falo com a mão quando te olho digo coisas mas por dentro como peixes e quando grito eu sou o cimo de uma montanha a passagem este instante eu prefiro inequivocamente os aviões aos pássaros eu prefiro correr atrás de uma bola que atrás de pássaros negar é uma tarde de sol a escrever num quarto uma tarde sol negar é dizer o que se vive de um mundo paralelo mas há fontes onde é impossível omitir peixes e cristais que se intersectam como mãos tingidas a cantar um trava-línguas o quotidiano é construído das margens onde os homens se abraçam carregados de instintos nas vozes há pontes sempre existiram durante curtos períodos que a torrente dilui ou simplesmente o tempo faz sobrepôr outra construção há ciclos na vida eu não os conheço mas ...

Ao balcão

há alturas em que a luz matinal me faz desenhar um cavalo de ferro isto é, inscrever nele as mãos em púrpura para seguir uma pista um rio de muitos fios dispersos mas por outras razões me fazem todos os dias trazer um passe social e um diário debaixo do braço e as palavras trocadas tal como uma praceta trazem o sabor do peixe e o cheiro de amêndoas mas sem conhecerem o que é uma duna ou terem pisado a lua no Verão as palavras são fugazes como um cimbalino mas anunciam-se como engrenagens gastas ou simplesmente descuidadas mesmo que nelas se resuma uma vontade de não ser assim