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Rue de Lombard com a Stoofstrasse

os dias podem entrar na porta de casa
como uma escada que se usa sem um fim específico
por exemplo
levantar asa
de um pássaro, macerar um boião de carmim ou brindar
a minha rua vista de outra cidade
é um vaso só mas quando a desço
há o cheiro a basílico nesse vaso
e quando a desço há o ninho do melro
os homens entram em casas e voam
há os que trazem o jornal ou sono
e os que falam junto aos cotovelos das mulheres fazendo-lhes cócegas
no cruzamento em que me encontro
rue de Lombard com a Stoofstrasse
uma mulher fuma enquanto olha o terceiro andar
e uma varanda coberta de luz
a sua pele é branca e a forma como pensa
é branca e veste de verde
e a luz verte em redor da varanda
o negrume do tijolo envelhecido e a calçada
pontuada de beatas, cerveja e vestígios de amendoim
enquanto a fila de peões atravessa a rua
o fumo mesclou-se com uma outra varanda
e a oportunidade passou
há jogadas em que somos voluntariamente subservientes de uma ideia
politeísta da natureza dos animais e do amor
transformando em desertos estas ruas movimentadas
e as conversas em mais alguns passos
apenas entre outras pessoas cansadas
é isso o metropolitano: a lembrança de um estendal
ou uma obrigação que subjuga o vôo por uma lei
é isso a ideia de ordem também
no dia em que o nosso amor for assim
a nossa rua estará noutra cidade também
e ao descermos esta notaremos apenas os vasos
fora de sítio
cuidemos bem do nosso beijo
é nele que me recordo do sabor da ameixa e da canela
é ele que traz uma janela aberta para o mar
e também
o estriar na pele de sal e azeite
eu cheiro neste navegar a nossa rua
a minha casa és tu
é assim que te sei amar

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