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Correspondência

o rio volta pela mesma rua em que
nos encontramos e leva com ele um navio
ou uma criança
as coisas simples quer delas prescindamos
quer prefiras o cheiro do fundo do mar
algures numa costa perdida para o mundo
vêm sempre no bolso dos calções de uma criança
ou no apito do oficial de dia
mas nenhuma habita este lugar de retorno
como se
das memórias de um elefante escolhêssemos algumas a vulso
consoante a cor ou a reminiscência de uma passagem do vento
no renque de laranjeiras na nossa rua
noutras ruas somos sempre a imagem de um outro vôo
apenas ensaiado
mas não é isso que queremos: dentro há rumores
passagens de carros na noite
uma colher enegrecida de açúcar e limão
o encostar a cabeça num torso
e sempre o pó, a ambiguidade de uma vida feita
uma desistência ou ainda
um lugar certo demais como uma paragem da carreira
eu espero por ti desde o início da tarde
para te dizer coisas bonitas
e o dia tem nele o cheiro das frutas da mercearia na esquina
a farinha que sobra do pão
os tons das saias: rosa, carmim, verde seco
e há também esta vontade
de esperar
ou simplesmente trazer para a rua os copos e o vinho
e conversar infindavelmente
como se fosse um sino uma agulha
ou então um ferro de queimar açúcar
é assim que espero por ti
com o sabor da canela diante dos meus olhos
e esta é a rua a que retorno
ou o lugar onde atracam, vindas de diferentes países
as faluas, as libélulas, os sacos de correspondência
por enviar

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