“Pertencemos a vários mundos mas o nosso quotidiano é a fuga a todos eles para construir uma ideia vã de lealdade, uma desculpa que nos conforte da perda de não nos fixarmos em nenhum lugar”, dizia-me a Xana, ontem. “Só podemos pertencer a um sítio: um sofá, onde casualmente nos sentamos sem compromisso algum”, acrescentava. “Se te ligas a alguém, a uma rotina, a um ideal, não podes mais ser tu, entendes? É como se o fatídico rumo do teu nome se revelasse afinal uma crise de indentidade irresolúvel, desinteressante, que se deixa de buscar e se delega. Passa tudo a ser um jogo que no marasmo do ócio parece ganhar um sentido enigmático, mas não é mais que isso”.
“Estás-me a dizer que eu sou um desses enigmas? Mais um jogo de ócio?” perguntei-lhe de olhos fitos nas mangas roídas de um dos empregados que desesperava perante mais um pico de pedidos de bicas, tremoços e scones. “Sim, tu o assumes quando me dizes que estás comprometido com um idealismo que achas que deve moldar este projecto”.
Raramente percebia onde Xana queria chegar com estas divagações vagamente acusatórias do mundo em redor. Era o António que nos impunha estes encontros: “No café do costume, já sabem!”. A sociedade podia ter deixado completamente ultrapassado o paradigma da conversa de café pseudo-revolucionária, sofisticada, ou simplesmente de intriga. Mas, por alguma razão esta continuava a fasciná-lo e era através destes encontros que incubávamos a ideia de lançar o número 1 do fanzine Afos.
“Agora é imprimir. Demos ênfase às deixas mais provocantes para deixar no leitor gosto adstringente de um discurso que não seja simplesmente vexatório do poder instituído e sem consequências. Está bombástico, não é? Tal como a Xana propõe. Estamos e não estamos comprometidos, é um reflexo perfeito da nossa sociedade”. Era o tema do primeiro número: “In-cómodo”.
Todos o fazem, pensava eu, isto de puxar a polémica. Mas não arrancamos para além disto - é inconsequente. E eu que não sou particularmente dado a espelhos, quanto mais a espelhos sociais... O empregado continuava afoito pendendo de mais e mais pedidos que lhe desaguavam do lado de lá do expositor de salgados. Na boca de Xana, para além do travo do chá de cereja recolhido numa recriação ocidental de um pomar recôndito do Japão num quintal de Samora Correia, isso tinha afinal uma explicação - “Chegámos afinal ao fim da História”.
Continuava a pensar, enquanto o dia intermitia entre uma estação metereológica ou outra trazendo mais pessoas para dentro às primeiras bátegas, numa música do Bob Dylan - “Because something is happening here/ But you don't know what it is/ Do you, Mister Jones?”. Mas o resto da letra estava tão distante na minha memória, que o simples facto de a soletrar se assemelhava-me a retirar às ogivas da nave de uma catedral um eco da voz de um barítono.
O António acrescentou: “Tudo é um processo de adormecimento para nos fazer acreditar nisso: a vida, os hábitos, a publicidade a uma outra vida em que somos actores num mundo feliz; a vergonha da nossa infância de uma adolescência fugaz, as nossas relações perdidas uma após a outra. Conseguiremos mesmo imaginar um dia nosso sem podermos ser dominados por uma ideia mais forte que nos faça esquecer a inevitabilidade de chegarmos a uma casa vazia num futuro prósimo? Isto é, um dia sem o anti-depressivo, o whisky ou uma boa dose de engradecimento do nosso ego?”
Na opinião de Xana tudo isso estava ultrapassado. Tinham sido questões adolescentes, medos ridículos. Típicas da geração das teses revolucionárias que agora era gorda como quando era criança e estava ocupada em salvaguardar-se de uma geração ausente à nascença de si mesma.
Mas eu estou agarrado a referências. Disse-lhes: “Não posso deixar de estar agarrado a referências e faz-me confusão, não saber o que decidir com base numa previsão do futuro. Por exemplo: não saber se hoje será Verão ou choverá como num dia de Janeiro, faz-me perder toda a vontade de sair à rua, procurar a reportagem, de pintar. Quanto mais não saber que rumo estamos a dar à nossa fanzine depois deste número”.
“És um desistente”, alvitrou Xana. E o empregado levando as mãos à cabeça encostou-se a uma parede quando o último pedido foi satisfeito. “Estás borrado de medo”, concluiu enquanto enrolava um fio de lã entre os dedos.
“Algo há-de surgir J! O que importa é lançar o primeiro número, outros se hão-de juntar”, tentava animar-me o António, enquanto remexia o chá de uma cerejeira fria que se criou japonesa num quintal ribatejano.
Xana achou que devíamos mudar de sítio. Nunca se pertence a sítio algum, só talvez a um sofá. Mas pouco importa onde se encontra o sofá, é ele que pertence a um dos mundos e nós estamos de passagem. Nele ficamos encostados, a cheirar os pés das cerejas diluídos em chávenas, com os olhos fixos numa tarde esbatida no vidro do café. Como se vivessemos nesse sofá, o prenúncio de algo - entre muitas outras coisas a que não pertencemos.
“Estás-me a dizer que eu sou um desses enigmas? Mais um jogo de ócio?” perguntei-lhe de olhos fitos nas mangas roídas de um dos empregados que desesperava perante mais um pico de pedidos de bicas, tremoços e scones. “Sim, tu o assumes quando me dizes que estás comprometido com um idealismo que achas que deve moldar este projecto”.
Raramente percebia onde Xana queria chegar com estas divagações vagamente acusatórias do mundo em redor. Era o António que nos impunha estes encontros: “No café do costume, já sabem!”. A sociedade podia ter deixado completamente ultrapassado o paradigma da conversa de café pseudo-revolucionária, sofisticada, ou simplesmente de intriga. Mas, por alguma razão esta continuava a fasciná-lo e era através destes encontros que incubávamos a ideia de lançar o número 1 do fanzine Afos.
“Agora é imprimir. Demos ênfase às deixas mais provocantes para deixar no leitor gosto adstringente de um discurso que não seja simplesmente vexatório do poder instituído e sem consequências. Está bombástico, não é? Tal como a Xana propõe. Estamos e não estamos comprometidos, é um reflexo perfeito da nossa sociedade”. Era o tema do primeiro número: “In-cómodo”.
Todos o fazem, pensava eu, isto de puxar a polémica. Mas não arrancamos para além disto - é inconsequente. E eu que não sou particularmente dado a espelhos, quanto mais a espelhos sociais... O empregado continuava afoito pendendo de mais e mais pedidos que lhe desaguavam do lado de lá do expositor de salgados. Na boca de Xana, para além do travo do chá de cereja recolhido numa recriação ocidental de um pomar recôndito do Japão num quintal de Samora Correia, isso tinha afinal uma explicação - “Chegámos afinal ao fim da História”.
Continuava a pensar, enquanto o dia intermitia entre uma estação metereológica ou outra trazendo mais pessoas para dentro às primeiras bátegas, numa música do Bob Dylan - “Because something is happening here/ But you don't know what it is/ Do you, Mister Jones?”. Mas o resto da letra estava tão distante na minha memória, que o simples facto de a soletrar se assemelhava-me a retirar às ogivas da nave de uma catedral um eco da voz de um barítono.
O António acrescentou: “Tudo é um processo de adormecimento para nos fazer acreditar nisso: a vida, os hábitos, a publicidade a uma outra vida em que somos actores num mundo feliz; a vergonha da nossa infância de uma adolescência fugaz, as nossas relações perdidas uma após a outra. Conseguiremos mesmo imaginar um dia nosso sem podermos ser dominados por uma ideia mais forte que nos faça esquecer a inevitabilidade de chegarmos a uma casa vazia num futuro prósimo? Isto é, um dia sem o anti-depressivo, o whisky ou uma boa dose de engradecimento do nosso ego?”
Na opinião de Xana tudo isso estava ultrapassado. Tinham sido questões adolescentes, medos ridículos. Típicas da geração das teses revolucionárias que agora era gorda como quando era criança e estava ocupada em salvaguardar-se de uma geração ausente à nascença de si mesma.
Mas eu estou agarrado a referências. Disse-lhes: “Não posso deixar de estar agarrado a referências e faz-me confusão, não saber o que decidir com base numa previsão do futuro. Por exemplo: não saber se hoje será Verão ou choverá como num dia de Janeiro, faz-me perder toda a vontade de sair à rua, procurar a reportagem, de pintar. Quanto mais não saber que rumo estamos a dar à nossa fanzine depois deste número”.
“És um desistente”, alvitrou Xana. E o empregado levando as mãos à cabeça encostou-se a uma parede quando o último pedido foi satisfeito. “Estás borrado de medo”, concluiu enquanto enrolava um fio de lã entre os dedos.
“Algo há-de surgir J! O que importa é lançar o primeiro número, outros se hão-de juntar”, tentava animar-me o António, enquanto remexia o chá de uma cerejeira fria que se criou japonesa num quintal ribatejano.
Xana achou que devíamos mudar de sítio. Nunca se pertence a sítio algum, só talvez a um sofá. Mas pouco importa onde se encontra o sofá, é ele que pertence a um dos mundos e nós estamos de passagem. Nele ficamos encostados, a cheirar os pés das cerejas diluídos em chávenas, com os olhos fixos numa tarde esbatida no vidro do café. Como se vivessemos nesse sofá, o prenúncio de algo - entre muitas outras coisas a que não pertencemos.
Comentários