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Fala

eu ouço dos aviões o chamamento
das árvores como se fosse uma criança perdida num jardim
a dançar e a dizer: "vou para casa"
onde chego não encontro para além de círculos desenhados
nas toalhas de mesa
e o cheiro da cera vermelha
quando dou a mão, falo com a mão
quando te olho digo coisas mas por dentro
como peixes
e quando grito eu sou o cimo de uma montanha
a passagem
este instante
eu prefiro inequivocamente os aviões aos pássaros
eu prefiro correr atrás de uma bola que atrás de pássaros
negar é uma tarde de sol a escrever num quarto uma tarde sol
negar é dizer o que se vive de um mundo paralelo
mas há fontes onde é impossível omitir
peixes e cristais que se intersectam como mãos tingidas
a cantar um trava-línguas
o quotidiano é construído das margens
onde os homens se abraçam
carregados de instintos
nas vozes há pontes
sempre existiram durante curtos períodos que a torrente dilui
ou simplesmente
o tempo faz sobrepôr outra construção
há ciclos na vida
eu não os conheço
mas pressinto as palavras encaixarem numa sequência que eu não dito
e dou-o pela negação
não tenho outra via
mas se ando, isto é, se viajo é o que faço simplesmente
falo com a tua mão é o que eu mais gosto
falar com a tua mão

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