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A vida a Oriente

a tua vida pode ser a qualquer instante
uma pedra uma tesoura cravada numa árvore
o som oco de um barco que atraca ao final da tarde
ou uma paisagem propícia
a tua vida é afinal um oceano
ou um fóssil?
nos dedos verdes de um presságio pode ou não passear-se um cisne
um camelo ou um passageiro apressado
por chegar ao deserto
onde se deixam as bandeiras
a falar umas com as outras de anéis
mundos invisíveis que na língua teimam
em não mergulhar
por isso eu te pergunto se a tua vida é navegável
numa tarde soalheira
e se encontras nela a mentira e o perigo
que há no fundo de um mar
ou deixas invernecer os anéis pousados na conversa dos outros
e no fumo
enquanto escrevo envelheço, não há melhor maneira
de procurar os amigos
que no silêncio da fogueira
eu ouço um erhu
eu visito as cidades a oriente
com o desinteresse de um rio
mas sento-me no chão dos bairros com lamparinas e
um copo de vinho
canto, isto é, extingo a voz na tua garganta
e as línguas são recortadas e queimam
nos ramos este outono as nossas conversas
eu passo depressa pelos dias mas sou preguiçoso
também eu tenho aquela pirâmide a
desconstruir
por exemplo: o momento em que tiramos fotos
e está frio
quase nem seguramos a máquina e focamos
um outro plano
mas estamos abraçados
e o mar falhado
sempre por cruzar
o mergulho é a forma de ser
como é a vida afinal a oriente?
eu pergunto porque vivo

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