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Crise de identidade

um homem desce a estrada com os seus cães vadios
sabe que a sua vida é completa assim
quando o fim de tarde levanta as árvores inclinadas no ar
e no ladrar há liberdade, bicicletas e mãos a apertarem-nos peito a peito
e diz ao amigo como é bom fazer o caminho ao seu lado
sem carpideiras atrás e falar das coisas simples da vida
como se escrevesse ininterruptamente ao ritmo da fala
e tivesse um tambor na garganta
onde um a um tocassem momentos felizes trazidos pela brisa
ou memórias por inventar num futuro próximo ou não
os amores, as despedidas também
mas as noites em campo com lama na cara
a guitarra um homem desce essa estrada
não vai só
jamais até ser parado no posto de controlo
frente ao inquestionável absoluto
à mão cerrada que cede a uma dor da idade ainda por descobrir
e é ilegal continuar a descer esta estrada
quando descobre o que navega num gemido encostado a uma parede
como uma cobra só, um destroço

um homem desce a estrada ouvindo o amigo e brinca com a sua matilha
a um espaço de se esquecer
como frente ao deserto ou adormecido nas pernas da sua companheira
à sombra de uma oliveira antiga
e entende um pássaro raro ou um quebra-cabeças
uma razão especial
uma dança – aquela que trazemos para oferecer com as colheitas
e esse homem é verdadeiramente feliz em palavras que não são as suas
e passa a viver por instantes
dessas mesmas palavras
ele é e não é um homem ou dois
quando vê de um horizonte ao outro
a mesma estrada e um posto de controlo
e uma certeza que mora para sempre em si
plantada pelo amigo
e param os cães em círculos incompletos como mecanismos redundantes
e a parede é óbvia mas a estrada maior e imagina
o trilho que se faria no mato e o deixaria imutável por um destino

um homem imagina o trilho mas pergunta onde está o seu modelo de vida
agora que um parágrafo ou vontade o separou do amigo
na estrada esse homem pergunta-me quem sou eu



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