o que é um dia senão numa colher equilibrar o pressentimento
da falta de espaço frente ao mar
por isso não procuro por detrás de uma árvore da mesma forma
que me sento com as crianças ou me deixo enrolar de raízes à chuva
e sentir a nuvem ínfima sobre o deserto
como uma agulha ou uma queimadura
por quanto te debruças sobre as palavras ditas
e a infinidade de mecanismos a desafinarem um uníssono agora
pelo que conheces da vida nas ruas
e das marcas que te deixam nos braços os cavalos
e o atracar dos grandes navios fantasma
porque tudo se concentra num momento só aqui frente aos armazéns da foz
numa carta abandonada sobre uma mesa de café
e sim, inevitavelmente
da mesma forma que se deve correr sem alma sobre um prado
ou sobre um areal luminoso
para se abandonar depois intensamente nas ruas noite dentro
encontras esse absoluto num trilho que se afunda num medo
abandonado na tua infância
e assim como tu eu vou ou não reencontrá-lo
por agora espero isto é
sentado no muro lanço uma a uma as folhas que rasgo de um caderno
sobre o que parece ser um rio ou o dorso de um animal púrpura enfeitiçado
que nunca perde o frio nem pode ser tapado
o sentido que fazem agora os campos a ceifar
e as personagens inquietas que encarnam pessoas reais por algum tempo
torna-se claro quando por exemplo cumprimento alguém por engano
ou sou apresentado a alguém verdadeiro, bonito,
como se por um instante houvesse nas candeias uma ausência de tempo que se deslumbra
e esquece rapidamente – são asas
e eu antes prefiro uma conversa para acontecer que subitamente é um beijo
eu encontro-te a cantar há horas seguidas
onde os pássaros esperam um sinal
para abandonarem o lado de dentro das coisas
as chaminés do porto
as pontes douradas
aqui, mais abaixo, pouco importa
é onde um lado escuro de um satélite ou de um dia passado se reconhece
como um ovo
aqui eu rompo os círculos as argolas para lá da minha intenção inocente
de ser pobre não envelhecer em paz
gastar-me só inexoravelmente casto e enlameado
a pele gretada de barro como um sírio a raíz de uma árvore antiga
daquelas que habitam o sonho das pedras negras
para nos esperarem do lado de lá das portas
a segredar
e eu ouço
ouves também?
os cavalos, a nuvem, a pedra nas suas palavras
o areal percorrido pelo vento
e o queixume das mulheres ao longe
eu ouço perfeitamente como se corresse atrás deles
e me agarrasse em pedaços soltos de ráfia
puxasse os cabelos de alguém, subisse a uma torre
para avistar o incêndio a revelar-nos a distância em soluços de fome
no entanto,
quando me encosto no degrau
vendo os operários apanhar o último autocarro para algum sítio
imagino um lugar seguro
provavelmente uma janela aberta pintada a vermelho
e sol e um sino
porque de cada direcção me acena um astronauta sem idade nem distinção
e um cão, o mesmo, de um lugar impreciso, ladra jocoso
e aviões a descolar ou a despenharem-se em assobios imperativos
reconhece: de um impasse segue-se um outro círculo a transpôr
como se nos movêssemos num vitral/caleidoscópio
ou montássemos uma serpente bicéfala
com uma venda
ou um miosótis
e, à medida que a loucura desagua ou rebenta com a maré
só uma casa nos acolherá
garante-me apenas
que se lá pernoitares lá farás morada aberta
e nunca o segredo de uma toca
eu hei-de chegar, deixo as sandálias à entrada
eu vou-me rir
como as cerejas ou um salto despreocupado num trampolim no verão
e abandonar o nervoso ignóbil de espalhar sombras pela cidade
promete ou não também
sê apenas
o andar ao meio-dia apenas no cimo de dunas
carregar contigo ao mesmo tempo de mãos livres e sem peso algum nos ombros
o azul
o incêndio
o respirar dos cavalos em fúria
o barro pronto a moldar em cada dia
a indiferença em tudo
a chama em tudo o mais
da falta de espaço frente ao mar
por isso não procuro por detrás de uma árvore da mesma forma
que me sento com as crianças ou me deixo enrolar de raízes à chuva
e sentir a nuvem ínfima sobre o deserto
como uma agulha ou uma queimadura
por quanto te debruças sobre as palavras ditas
e a infinidade de mecanismos a desafinarem um uníssono agora
pelo que conheces da vida nas ruas
e das marcas que te deixam nos braços os cavalos
e o atracar dos grandes navios fantasma
porque tudo se concentra num momento só aqui frente aos armazéns da foz
numa carta abandonada sobre uma mesa de café
e sim, inevitavelmente
da mesma forma que se deve correr sem alma sobre um prado
ou sobre um areal luminoso
para se abandonar depois intensamente nas ruas noite dentro
encontras esse absoluto num trilho que se afunda num medo
abandonado na tua infância
e assim como tu eu vou ou não reencontrá-lo
por agora espero isto é
sentado no muro lanço uma a uma as folhas que rasgo de um caderno
sobre o que parece ser um rio ou o dorso de um animal púrpura enfeitiçado
que nunca perde o frio nem pode ser tapado
o sentido que fazem agora os campos a ceifar
e as personagens inquietas que encarnam pessoas reais por algum tempo
torna-se claro quando por exemplo cumprimento alguém por engano
ou sou apresentado a alguém verdadeiro, bonito,
como se por um instante houvesse nas candeias uma ausência de tempo que se deslumbra
e esquece rapidamente – são asas
e eu antes prefiro uma conversa para acontecer que subitamente é um beijo
eu encontro-te a cantar há horas seguidas
onde os pássaros esperam um sinal
para abandonarem o lado de dentro das coisas
as chaminés do porto
as pontes douradas
aqui, mais abaixo, pouco importa
é onde um lado escuro de um satélite ou de um dia passado se reconhece
como um ovo
aqui eu rompo os círculos as argolas para lá da minha intenção inocente
de ser pobre não envelhecer em paz
gastar-me só inexoravelmente casto e enlameado
a pele gretada de barro como um sírio a raíz de uma árvore antiga
daquelas que habitam o sonho das pedras negras
para nos esperarem do lado de lá das portas
a segredar
e eu ouço
ouves também?
os cavalos, a nuvem, a pedra nas suas palavras
o areal percorrido pelo vento
e o queixume das mulheres ao longe
eu ouço perfeitamente como se corresse atrás deles
e me agarrasse em pedaços soltos de ráfia
puxasse os cabelos de alguém, subisse a uma torre
para avistar o incêndio a revelar-nos a distância em soluços de fome
no entanto,
quando me encosto no degrau
vendo os operários apanhar o último autocarro para algum sítio
imagino um lugar seguro
provavelmente uma janela aberta pintada a vermelho
e sol e um sino
porque de cada direcção me acena um astronauta sem idade nem distinção
e um cão, o mesmo, de um lugar impreciso, ladra jocoso
e aviões a descolar ou a despenharem-se em assobios imperativos
reconhece: de um impasse segue-se um outro círculo a transpôr
como se nos movêssemos num vitral/caleidoscópio
ou montássemos uma serpente bicéfala
com uma venda
ou um miosótis
e, à medida que a loucura desagua ou rebenta com a maré
só uma casa nos acolherá
garante-me apenas
que se lá pernoitares lá farás morada aberta
e nunca o segredo de uma toca
eu hei-de chegar, deixo as sandálias à entrada
eu vou-me rir
como as cerejas ou um salto despreocupado num trampolim no verão
e abandonar o nervoso ignóbil de espalhar sombras pela cidade
promete ou não também
sê apenas
o andar ao meio-dia apenas no cimo de dunas
carregar contigo ao mesmo tempo de mãos livres e sem peso algum nos ombros
o azul
o incêndio
o respirar dos cavalos em fúria
o barro pronto a moldar em cada dia
a indiferença em tudo
a chama em tudo o mais
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