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Moinho

quero uma pá de encontrar tesouros para fazer um moinho
onde pendurar cores de um pano antigo
como usam as florestas antes da tempestade
pouco me interessa se quando a noite vem somos encontrados
no pontão ainda
a soprar nuvens para dentro de garrafas
alguma delas trará o acorde certo e as nossas cabeças repousarão junto
às dos putos que dormem pendendo dos martelos de um piano
ou da impressão dos passos em falso dos tablini blini

nós nunca falamos
da idade que temos

nós nunca falamos da idade que temos e somos tão verdadeiros
quanto o aceitamos da terra nos nossos pés

nós nunca falamos

eu sei, de algumas vilas em que dormi
como o calor vem em ripas de junco ou no silvado ou nos cacos multicor de vidro
que nos tocam a pele como uma harpa ou uma língua áspera
e é tão simples que parece estúpido nunca mais o escrever
e o que parece é
uma oferta isto é a passagem de um insecto ou a noite nas asas da borboleta
que nos cobre a face se hesitamos em sonhar

até quando
dirás tu

que assim tem de ser açúcar
máscara
os veados escondidos
as partidas sempre antecipadas
o que se esquece
o dia em que somos defrontados com o pronunciar da língua
dos mantupelotecos por dentro
para a calarmos num canteiro
como quem varre

dos nossos dedos escorrem os cereais
e entoamos:
“vili vili pim/ manu pelo toco mino pau/ chama dentro de nós/ o sinde de soprar/ um tablini para o sul”

e vem o sol
um barco que ele traz nas saias
para que o deixemos à porta de mais um dia apenas só

porque escolher palavras é mais ou menos o teu assim tem de ser
não as dizer é trocar inevitavelmente a primeira vez em que a areia não é
o que nos enterra os pés
mas o que queremos pisar
é enviar camelos
e cestos a atravessar o deserto com fotos do mundo

isto desemboca na nossa rua enquanto nos sentamos com o nosso grupo
à espera de quem se nos vai juntar

nada é numerável para além de uma convicção vã
e essa reside num vôo entediado entre ramos
agora é sempre só pode ser a berma de um telhado
não uma gaiola
a abrir para nós as malhas de um mundo escondido
onde os tablini blini se enroscam em tafetá na sombra na luz na luz
na sombra
como o chegar às janelas de um comboio um abraço ofegante
um rapto de alguém querido

nós estamos prontos
levantamo-nos ao som da música e batemos palmas
e há uma desconfiança de que nós mesmos
nos trairemos
mas isso virá com a primeira hesitação em pronunciar a língua original
e por isso mesmo sermos supreendidos
nada é uma peça de um puzzle e o lugar das coisas é o único absurdo que
posso classificar de hipócrita
a eternidade é um planeta ou um cacto
ou alguém desinteressante para improvisar agora aqui já
um beijo
sem medir consequências
e medir é calar
o sussurro
quando antes da estrada

deixar a fogueira e levar connosco os animais selvagens

escuta
não digo que não penses
só que não penses nisso
e fala
com os animais selvagens
como se fosses um monstro incrível e fizesses malabarismo
com bolinhas de felicidade e lâminas
e aprendesses o nome das coisas sempre
como se as tocasses pela primeira vez
isto é
escuta

não vou explicar
porque não há nada mais triste
que roubar ao silêncio o abandono da guitarra na voz de uma memória ancestral
isso conduz-nos aos mapas e aos dados
abandonados sobre a mesa
como se fossem coisas distintas
e se alguma vez valeu a pena a viagem e não embarcar nela

sinto a cabeça aveludada de martelos no corpo
enquanto ondulo por dentro do piano e de cada um dos teus beijos
e sinto a noite próxima
o tablini blini vem
ele é sombra ele é luz é luz sombra
é sombra-sombra luz sombra sombra
é luz
definitivamente ele é

e eu vou ser fui sou
eventualmente

um tablini blini

eu sou

um moinho

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