à noite subimos sempre para uma escada
uma memória ou um nicho num bairro pobre desta cidade
e entramos nas casas velhas como se a elas pertencessemos
e vamos de mota na estrada vento no rosto
a avançar devagar
os dedos sobre os dedos
a pele como a de um réptil à chuva
e a vontade de nos evadirmos num mar quase indomável e estranho
parece que o que trazemos por dizer é um jogo de xadrez
um fundo de rio vermelho onde os barcos são levados em línguas de feras e de fogo
e tudo é agora relativo e espontâneo e sinto o mar chão a escapar-se-me
e eu a correr para entrar num quarto que se apagou
e ficou frio antes de me deitar ao teu lado depois de uma demanda
mas não pode ser assim
não há como dizer destas noites aqui ou noutra cidade
a língua é sempre incompreensível
os passos circundantes dos mesmos personagens
que falam de si mesmo apenas
lentos
e desconfiados
seguros de um niilismo de remos que não se plantam nas águas
os véus pretos das mulheres tornam-se um desafio irónico ao tempo e à vontade
os homens de brilhantina dançam um tango no olhar pousado com luxúria
nos carros e nos crocodilos nas mãos atrás de uma esquina
e o fumo que traz consigo uma solidão intensa
de renegar o barro na planta dos pés
não há como fazer destes lugares um ancoradouro
mas a noite
aqui ou noutra cidade
são também as candeias nos olhos dos gatos
os homens que esperam à chuva para avançar
os homens que comem fuba no coração uns dos outros
em torno de um cesto de terra quente
e nós recebemos de ti uma história em noites como esta
nós falámos da planície pela manhã de onde se avista a primeira nuvem sobre o rio
e as estátuas encostadas ombro com ombro
desprevenidas numa ternura secreta
que se desfaz no pressentimento de passos
e porque todos fomos raptados um dia de um sítio feliz
isso é podermos agora ver faróis longínquos e escolher
a página em branco
[ não uma conversa vã ]
o carvão a cantar baixinho a princípio
nas mãos de uma velha
o areal longínquo e carcomido por dentro dos meus ossos
mas seguro
eu ouço-o do teu peito no vento
a moto
as candeias avançam como mãos para te agarrar
mas não são os gatos
eu fico na estrada a ver-te subir para elas como se fosses um insecto e não um incrível
revolucionário
mas são apenas paredes o que nos faz parecer insectos
não a noite
uma memória ou um nicho num bairro pobre desta cidade
e entramos nas casas velhas como se a elas pertencessemos
e vamos de mota na estrada vento no rosto
a avançar devagar
os dedos sobre os dedos
a pele como a de um réptil à chuva
e a vontade de nos evadirmos num mar quase indomável e estranho
parece que o que trazemos por dizer é um jogo de xadrez
um fundo de rio vermelho onde os barcos são levados em línguas de feras e de fogo
e tudo é agora relativo e espontâneo e sinto o mar chão a escapar-se-me
e eu a correr para entrar num quarto que se apagou
e ficou frio antes de me deitar ao teu lado depois de uma demanda
mas não pode ser assim
não há como dizer destas noites aqui ou noutra cidade
a língua é sempre incompreensível
os passos circundantes dos mesmos personagens
que falam de si mesmo apenas
lentos
e desconfiados
seguros de um niilismo de remos que não se plantam nas águas
os véus pretos das mulheres tornam-se um desafio irónico ao tempo e à vontade
os homens de brilhantina dançam um tango no olhar pousado com luxúria
nos carros e nos crocodilos nas mãos atrás de uma esquina
e o fumo que traz consigo uma solidão intensa
de renegar o barro na planta dos pés
não há como fazer destes lugares um ancoradouro
mas a noite
aqui ou noutra cidade
são também as candeias nos olhos dos gatos
os homens que esperam à chuva para avançar
os homens que comem fuba no coração uns dos outros
em torno de um cesto de terra quente
e nós recebemos de ti uma história em noites como esta
nós falámos da planície pela manhã de onde se avista a primeira nuvem sobre o rio
e as estátuas encostadas ombro com ombro
desprevenidas numa ternura secreta
que se desfaz no pressentimento de passos
e porque todos fomos raptados um dia de um sítio feliz
isso é podermos agora ver faróis longínquos e escolher
a página em branco
[ não uma conversa vã ]
o carvão a cantar baixinho a princípio
nas mãos de uma velha
o areal longínquo e carcomido por dentro dos meus ossos
mas seguro
eu ouço-o do teu peito no vento
a moto
as candeias avançam como mãos para te agarrar
mas não são os gatos
eu fico na estrada a ver-te subir para elas como se fosses um insecto e não um incrível
revolucionário
mas são apenas paredes o que nos faz parecer insectos
não a noite
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