a medida do nosso mundo é uma carta que se esconde
debaixo de um tapete persa
é uma cauda de um cão animada por um instinto mais forte que
um apito do barco no cais
que as cordas que nos deixam nos braços
defronte das velas
eu entendo, à passagem nas ruas e ao olhar os casais que saem da ópera
ou os homossexuais que discutem uma vida inacabada de outro alguém
para tomar café
o cheiro da maresia
e não do café
há a presença constante de uma cidade por entrar
e uma hora para largar as peças do xadrez e dançar apenas
há aliás numa esquina
que deixei algures inacabada na memória por um beijo nosso,
e são tantos os que dariam para encher esta e outras cartas de um tempo marginal
que hesita em destilar este quotidiano que separa a cor do vento nos panos
um gesto
onde depouso o meu instrumento musical
na sombra fresca de um plátano
ou será imaginado?
porque é quase impossível o branco quando por dentro das nuvens
crescem vulcões amestrados
e por dentro de cada prédio há uma árvore a conversar com uma gralha
que se passeia indolente entre um campo por ceifar há muitas estações
e por isso dentro de mim há todas estas coisas e um barco
que se constrói por dentro dessa guitarra
e as mãos que a dedilham com amarelo e azul nos dedos
e, para terminar,
por sobre o areal onde se estilhaça num gume o sol
dirijo-me de encontro à caravana e pergunto-lhes numa língua estranha
por este lugar inacabado
e é afinal por isso que existem os comboios
que são a demonstração pelo absurdo
de que há destinos que se não ligam
e outros que nem são avistados
e é por isso que eu deixo quando páro em cada um deles sem pensar no regresso
a minha taça transbordar
Comentários