Avançar para o conteúdo principal

partida, lagarta, fugida

há sempre essa folha caída, esse barco que te espera

para cobrir uma vida suplente

é um binóculo atrás da parede um jogo que te faz

pensar duas vezes antes de mergulhares as mãos numa arca de pó

conheces bem o que te digo neste momento

enquanto nos sentamos sobre o tapete vendo o gelo a derreter em volta

e a deixar pessoas minúsculas felizes e em posições obtusas

próprias de mecanismos hibernantes

num qualquer diário do Leonardo da Vinci

ou seja, um quadro no museu do Prado

escuta este convite

é nessas mãos que está escrito e é difícil repeti-lo

como a um pássaro de ramo em ramo

a cravar agulhas nos frutos ausentes do verão

é isso um osso

eu sei que escutas esta mesma música e que pegas finalmente na história

que temos para contar

e partes, de novo, de encontro ao sal

nos olhos junto à estrada

e pintas de carvão a pele para que não se esqueça a montanha

nem tu do que se escuta ao tocar por dentro os astros

impossíveis de alcançar ao fim da tarde

Comentários

Mensagens populares deste blogue

As bandeiras (é sobre passar de noite por locais desertos ou não)

é como a ausência de bandeiras só cordas estendidas e água o pêndulo do frio subitamente iluminado como se um ganso pousasse ou este rapaz trouxesse um objecto em fogo, é a língua a cor é finalmente a pedra e o vidro é por excelência hipocrisia e imitação da realidade viver na rua é conhecer o nome às pessoas pelo seu andar anotar os seus hábitos com desdém pelo dobrar dos sinos a cidade inteira é um desastre que se impede quando pronunciamos as palavras interditas: qualquer vontade que tenhas meu irmão os teus sonhos que sobressaem ao longo das noites frente ao copo de cerveja o fumo a brasa ainda próxima das faces dos amigos da tua própria àquilo que desejas ligar, suster de uma armação invisível e amorosa por dentro de uma caixa fechada que se chama escultura de ti próprio uma imagem espelhada ou alma dos pássaros em volta chega-se uma estrada que passa pelo ridículo e outro lugar qualquer senta-te comigo veste-te de pirata e escuta os metais nos telhados, a matéria a rasgar-se e a...

Fala

eu ouço dos aviões o chamamento das árvores como se fosse uma criança perdida num jardim a dançar e a dizer: "vou para casa" onde chego não encontro para além de círculos desenhados nas toalhas de mesa e o cheiro da cera vermelha quando dou a mão, falo com a mão quando te olho digo coisas mas por dentro como peixes e quando grito eu sou o cimo de uma montanha a passagem este instante eu prefiro inequivocamente os aviões aos pássaros eu prefiro correr atrás de uma bola que atrás de pássaros negar é uma tarde de sol a escrever num quarto uma tarde sol negar é dizer o que se vive de um mundo paralelo mas há fontes onde é impossível omitir peixes e cristais que se intersectam como mãos tingidas a cantar um trava-línguas o quotidiano é construído das margens onde os homens se abraçam carregados de instintos nas vozes há pontes sempre existiram durante curtos períodos que a torrente dilui ou simplesmente o tempo faz sobrepôr outra construção há ciclos na vida eu não os conheço mas ...

Dos ulmeiros

foi quando a estação entrou quando disse que sim por entre as ruas desirmanadas onde os polegares equilibram piões e cotovias e as tábuas baloiçam um tempo de construção um socalco semeado quando a água escasseou e virámos a estibordo a conversa de encostar à parede um encontro noutro dia frente a um cais ou a esse canteiro pendendo horas vagas de uma janela espreita uma velha de monóculo sobre as crianças? amassam barro – junto as raízes dos ulmeiros era assim que queria chamar essas árvores como contava uma história – chamava por ti é como beijar-te e sofrer um navio ou pelo menos assim o entendo o acaso de te encontrar antes do nome desta rua