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Riscos

Há uma manhã em que acordamos junto ao lago
e mergulhamos como se nos deixássemos ir por dentro
das rodas de uma bicicleta sem oferecer resistência
e eu provo, sem possuir,
a sombra de um tambor e um pomar de inverno rasgado por barcos lentos

eu conheço-te: a gravilha, os grãos secos de leguminosas espalhados sobre a mesa,
a mão na tesoura às ordens de um olhar sobre as margens como se em ti mesma
e eu envelheço e trepo as árvores preguiçosamente verde

enrolamos as casas e fumamos num cachimbo estas incertezas porque há só este instante
para partir na aventura que impede o regresso ou melhor
a ilusão
e quando te ergues há um caminho luminoso que fere o ar
e quando fala um sonho interior percebo a medida exacta
única do que em ti há e isso é a proximidade de um pano de girassóis
de um pente deixado em cima de uma pedra ou as roupas com que os pássaros e animais imprevistos se vestem

à medida que me aproximo escolhes para mim o que eu nunca desejaria
mais que a lua, a areia nas costas atravessadas por uma caravana surda
e a montanha descoberta perpetuamente a meio
os meus dias completam-se de um plano que não distingo
para lá de uma parte da estrada coberta

ao carregar um dia deixo por abrir o livro vezes sem conta
este plano é interior e está em cada um de nós
à espera de uma manhã preciosa
em que nos abandonamos junto a um lago
cobertos de girassóis ou riscos quentes e brancos
de despedida de nós mesmos

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