Avançar para o conteúdo principal

Extracto do relatório do C.F.B. sobre o percurso Cubal-Lobito nº024200

Ao meu amigo Zé Luís


... e isto foi tudo na carruagem nº101,
do Cubal ao Lobito há 300 formas de dizer ao contrário um segredo azul nas bocas dos sapos
do Calenguele ao Lobito há 200 vitrais e atrás um monte e ríamos sem parar
do Lobito ao Caimbambo vimos 200 cães a segurar 200 pontes
[ que terminavam em suspenso como a vida a cada instante
só do Cábio ao Lobito foram 200 quilómetros que o colega Acácio tricota diariamente
[ como uma cópia da instrução primária
do Cubal ao Cango vi 200 mascarados com varas nas mãos a espantar um grilo
do Calenguele ao Cango aprendemos mais de 100 formas diferentes de dar as mãos
[ à beira de um algeroz a pingar
do Caimbambo ao Cango comprei 100 cestos de flores amarelas mas senti-lhe o sabor a tijolo
do Cubal ao Calenguele encontrámos 100 mulheres a escamar peixe
[ e a tirar relógios das suas entranhas
e do Cubal ao Caimbambo enganámos 100 esquimós apressados por chegar ao Cubal
[ e trouxemo-los connosco
mas do Calenguele ao Caimbambo eram 100 os otchikukuvandas de volta de uma pedra lunar
e do Cubal ao Cábio vimos do longe outros 100 otchikukuvandas sem óculos
[ a avançar para um túnel nas montanhas
eu vi 100 ou mais casas sem portas e por dentro chamei uma criança que ria,
[ isto do Calenguele ao Cábio, mas era só eu a pensar de saudade na montanha
e do Caimbambo ao Cábio estavam 100 bois em fila desordeira e sem bilhete
[ indignados com a espera
porque do Cábio ao Cango os 100 esquimós já iam animados e batiam palmas
[ e todos dançámos e até choveu e demos as mãos novamente sob um algeroz feliz
foi na volta do Cango para o Lobito que fizemos 100 jogos de escondidas sem sair do lugar
e isto foi tudo na carruagem nº 102,
do Cubal ao Lobito ...

Comentários

Mensagens populares deste blogue

As bandeiras (é sobre passar de noite por locais desertos ou não)

é como a ausência de bandeiras só cordas estendidas e água o pêndulo do frio subitamente iluminado como se um ganso pousasse ou este rapaz trouxesse um objecto em fogo, é a língua a cor é finalmente a pedra e o vidro é por excelência hipocrisia e imitação da realidade viver na rua é conhecer o nome às pessoas pelo seu andar anotar os seus hábitos com desdém pelo dobrar dos sinos a cidade inteira é um desastre que se impede quando pronunciamos as palavras interditas: qualquer vontade que tenhas meu irmão os teus sonhos que sobressaem ao longo das noites frente ao copo de cerveja o fumo a brasa ainda próxima das faces dos amigos da tua própria àquilo que desejas ligar, suster de uma armação invisível e amorosa por dentro de uma caixa fechada que se chama escultura de ti próprio uma imagem espelhada ou alma dos pássaros em volta chega-se uma estrada que passa pelo ridículo e outro lugar qualquer senta-te comigo veste-te de pirata e escuta os metais nos telhados, a matéria a rasgar-se e a...

Fala

eu ouço dos aviões o chamamento das árvores como se fosse uma criança perdida num jardim a dançar e a dizer: "vou para casa" onde chego não encontro para além de círculos desenhados nas toalhas de mesa e o cheiro da cera vermelha quando dou a mão, falo com a mão quando te olho digo coisas mas por dentro como peixes e quando grito eu sou o cimo de uma montanha a passagem este instante eu prefiro inequivocamente os aviões aos pássaros eu prefiro correr atrás de uma bola que atrás de pássaros negar é uma tarde de sol a escrever num quarto uma tarde sol negar é dizer o que se vive de um mundo paralelo mas há fontes onde é impossível omitir peixes e cristais que se intersectam como mãos tingidas a cantar um trava-línguas o quotidiano é construído das margens onde os homens se abraçam carregados de instintos nas vozes há pontes sempre existiram durante curtos períodos que a torrente dilui ou simplesmente o tempo faz sobrepôr outra construção há ciclos na vida eu não os conheço mas ...

Dos ulmeiros

foi quando a estação entrou quando disse que sim por entre as ruas desirmanadas onde os polegares equilibram piões e cotovias e as tábuas baloiçam um tempo de construção um socalco semeado quando a água escasseou e virámos a estibordo a conversa de encostar à parede um encontro noutro dia frente a um cais ou a esse canteiro pendendo horas vagas de uma janela espreita uma velha de monóculo sobre as crianças? amassam barro – junto as raízes dos ulmeiros era assim que queria chamar essas árvores como contava uma história – chamava por ti é como beijar-te e sofrer um navio ou pelo menos assim o entendo o acaso de te encontrar antes do nome desta rua