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Um palmo

Sabemos que o Inverno chegou quando as torneiras pingarem anémonas
e o chão sob os passos for o folhear trémulo de um jornal de dias ligados
o fundo do meu copo e os rebuçados ausentam-se definitivamente da conversa
estou defronte de um jardim que é uma ilha e um tabuleiro cravado de pregos tortos
e mesquinhos e eu sei prefeitamente que o que vejo é
um arco perpétuo em chamas sobre as casas que habitei.
Atrás ficam as ruas.
Os animais adormeceram enquanto a luz encharca as cortinas e sinto um beijo
quente enquanto provo a existência em mim de uma matilha abstracta
de objectos frustrados: rolos de fita, vasos de ausência, jóias e alguns textos;
penso no que sabemos e encontro-me de novo frente a uma rua feita de tábuas
e linhas entrelaçadas – descubro o instante que não se deve fotografar -
uma câmara vazia é um eficaz objecto de fazer poesia pois
é pelo abandono que tudo deve principiar e faz sentido.
Entro no jardim. Entrar no jardim é ser contrariado por uma multidão:
alguns trazem escadas nos braços outros amarram-se a espaços etéreos
e há muitas crianças a imitar ruídos de animais como se estivessem numa estação
de comboio a correr biombos sobre cada palavra;
com isso se descobre o sagrado nos veios das portas, cadeiras, na mesa vazia
e nas cartas abertas que ficam por ler a cheirar a pachorra, a barcos semi-submersos
num cais palafítico. É este o princípio da fotografia também
um palácio de cristal branco subitamente incendiado de cor-de-laranja
e verde claro tão intensamente quanto indistinguível da velhice do sol sobre a escadaria
e da água ansiosa que as mulheres trocam nas mãos.
Por momentos deixei a rua, o espaço de esperar desde cedo animais misteriosos,
e o encontro que se adia desde que as estações se avizinham tristes.
Percorrer escadarias infinitas como quem bate às bortas com a face pesada
conhecer a luz pelo toque das pedras e seguir absurdamente pássaros,
casacos roxos, bengalas negras ou o trilho de um romance lido para voltar
à rua que lera num contexto diferente
como se me sentasse num elefante
soa-me a uma gargalhada cheia de gansos. (Eles acercam-se do teu chamamento
como vapor e a sua consciência é volátil de tão plena e inexistente).
A multidão é o olhar absorto cheio de labirintos automaticamente gerados pelo tempo
e pelos passos mas
Um prédio não se pode acrescentar mais do que...
Uma escada não pode aguentar mais do que...
Uma mão, para ser fria, não se pode agarrar a mais do que...
Um dia, para ser feliz, não pode durar mais do que...
Um amigo é uma nuvem e uma viagem.
Um homem não se pode tornar maior por...
A estrada não pode ver mais do que...
Um abraço não pode ser mais do que...
Uma palavra, mesmo em cristal, não é mais simples do que...
Um cavalo não pode ser mais belo do que...
Uma nesga de sol entre barracas não pode trazer mais do que...
O pássaro azul, o doce de abóbora, a brasa quase a chegar à água e as mãos felizes
que a vão segurar são um sonho que não pode terminar antes de...
a cotovia chegou...
a cotovia chegou com um martelo a este palco e entrou no barco
e ouviu-se o som de um piano e uma cavalgada no peito das mulheres.
as cadeiras são desempilhadas e descobertas do frio
e torna-se quase impossível a ideia de casa
é aí que esperam flautas e montanhas de som vítreo que o vento faz explodir.
quando o telhado rio deixa cair as suas folhas
encontro o tempo das esplanadas mergulhadas nas páginas brancas
a assistir ao milagre de um chá quente e de uma sonata reencotrada
quando passeio pelas ruas é Outono e viro-me em mim
como se não conversasse com mais ninguém para além dos animais
e de um pressentimento de morte nos dias
mas agora imagino o elefante o homem que o monta
vive feliz concerteza naquilo que faz
como se tocasse violoncelo, nadasse perpetuamente num lago escuro,
pendesse de uma vela há pouco acesa,
para não esperar nada e sentir tudo como um fruto
e isso consola-me a ideia não confirmada de uma expedição nas ruas da minha cidade
como se fosse num outro planeta
por isso
despacha-te a acordar o barco uma manhã
e cobre os amigos de lã verde, tira as mãos da cara
é agora, é agora que o chapéu de chuva sai de dentro da paisagem
faz com ele uma dança para balançar o colo menina
enquanto o corvo observa o país com as luvas no bolso
vamos regressar de uma vez por todas ao espelho atravessado
de montanhas rochosas púrpura, telhados de palha queimada,
o cheiro intenso do corpo dos vindimadores ou dos maquinistas
nas costas de um manequim onde se lê o aviso: pintado de fresco.
Atrás ficam jardins no meio da rua.

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